terça-feira, 15 de outubro de 2013

Somos aqueles que registram e examinam o Mal, para que o Bem prevaleça


Excelências, autoridades, senhores que, dos palácios, decidem nossos destinos:

Venho apresentar-lhes uma classe oculta. Ocultação, aliás, um tanto irônica, pois somos os que veem. Somos, caríssimos senhores, os olhos da Justiça, da Justiça tão necessária neste nosso sofrido País.

Ninguém nos conhece, ninguém nos vê; e nós seguimos em frente, vendo os males, vendo as dores, vendo as mortes, os furtos e roubos, os acidentes, os sofrimentos somados e empilhados de nosso povo, em sua maioria tão honesto e tão bom.

Somos, senhores, os Peritos Criminais. Ninguém nos conhece. Quando chegamos ao local de um furto, as vítimas pensam que somos os investigadores. Compreensível, pois eles raramente vão aos locais de furto. Que aliás raramente são investigados, mas aí já é outra história.

Quando chegamos a um local de homicídio, os bravos soldados da PM já o isolaram do público, e não somos vistos. Quando chegamos a um local de acidente, a mesma coisa. Com o problema adicional do nosso suposto atraso: todos estão ali esperando há horas para que a Perícia Criminal libere o local, e onde estava a Perícia Criminal? Explicarei aos senhores onde estava a Perícia Criminal: a Perícia Criminal estava periciando. A Perícia Criminal, esquecida de todos, estava se deslocando por áreas cada vez maiores – afinal, com cada vez menos Peritos Criminais, as áreas de atendimento de cada Perito Criminal só podem aumentar! –, tentando atender decentemente a uma demanda que a situação do país só faz aumentar. Tentando, senhores, registrar cada ponto crucial de cada uma das desgraças, de cada uma das tragédias em que nossa presença é requisitada.

Os plantões, que há alguns anos atrás eram cansativos, tornaram-se impossíveis. Áreas muito maiores, número cada vez menor de Peritos Criminais, uma criminalidade cada vez mais violenta, o flagelo das drogas que assola toda a sociedade, espalhando-se como os braços esqueléticos de uma Morte de folhetim, e a quem cabe tudo ver, tudo acompanhar, tudo registrar e analisar? Ao Perito Criminal.

Quando o crime ocorre, chama-se a PM. Quando os vizinhos brigam, chama-se a PM. Quando o acidente ocorre, chama-se a PM. 190 é o número, todos o conhecem. O que faz, contudo, a PM? Vale lembrar para que nossas autoridades possam tomar suas decisões – que, sabemos, buscam o justo – com conhecimento de causa. A PM, senhores, preserva o local e comunica à Polícia Civil. A PM preserva o local, contudo, não movida por uma estranha vontade de vê-lo assim, paralisado no tempo. Não por acha-lo bonito. Ela o preserva para nós: para aquele caco de Perito Criminal que irá se arrastar de fora de uma viatura, tendo atendido antes daquele outras dezenas de locais, responsável solitário que ele é por uma área de milhares de km², com dezenas de municípios.

À Polícia Civil compete ouvir as partes envolvidas, instaurar – se for o caso – um Inquérito Policial, em que se procurará a verdade dos fatos: houve crime? Há quem pareça o ter cometido? E quem vai examinar o local do crime? Quem vai testar cada instrumento empregado – ou não – nele? Quem vai procurar resíduos, indícios e vestígios nos cadáveres, impressões digitais no local e nas peças? Quem vai discernir como aquilo aconteceu, para que a Polícia Civil possa dedicar-se a descobrir os “quems” e “porquês” que levarão um dia, se tudo der certo, à justa punição de um criminoso? Um Perito Criminal. Um Perito Criminal solitário, acompanhado, na melhor das hipóteses, de seus escudeiros o fotógrafo e o motorista, que hoje em dia também cumprem, no mais das vezes, as funções de agente (guarda-costas). E ninguém os vê, ninguém os conhecem.

Somos poucos, pouquíssimos!, cada vez menos. E a criminalidade aumenta cada vez mais. E as áreas que cada um cobre no plantão aumentam cada vez mais. Temos pouco tempo para lutar devido a grande demanda de trabalho, examinando os corpos das vítimas, as janelas quebradas, os carros batidos, os rastros, traços, tacógrafos, facas, pistolas, drogas, porretes e fazendo os laudos periciais.

O laudo pericial é o resultado final do nosso trabalho, muitas vezes é confeccionado nos momentos que seriam de descanso do Perito Criminal, levando, as vezes dias ou até meses para ser feito, e vamos carrega-lo para o resto de nossas vidas, somos responsáveis por tudo que nele está escrito e ele tem poder suficiente para mudar vidas, fazer justiça, inocentar ou culpar. "Cada laudo que expedimos é um filho que colocamos no mundo (jurídico)". Enquanto esse "filho" não morrer ou enquanto nós não morrermos seremos (pela justiça) responsáveis por ele.

Ao Perito Criminal cabe examinar o Mal, as marcas da maldade humana, e isso não pode ser deixado de lado. Percorríamos, maleta na mão, o bosque onde Seu Lobo fez das suas. Não deu tempo de acompanhar a política ou de fazer passeatas. Mas levantamos por um instante a cabeça do nosso trabalho, que não cessa, e pedimos, respeitosamente, que não se esqueçam de nós. Somos invisíveis, mas somos os olhos da Justiça, trazemos à vida a Rainha das Provas. Sem nós, não há Justiça possível.

Não pedimos privilégios, apenas a isonomia, não queremos criar uma nova polícia, pois a Polícia Científica já existe de fato, nome inclusive já consagrado pela mídia. O que queremos é que ela exista de direito, que seja incluída no artigo 144 da Constituição Federal!

E esperamos, sinceramente, que os senhores jamais precisem dos nossos serviços; afinal, somos aqueles que registram e examinam o Mal, para que o Bem prevaleça.

Agradecendo antecipadamente a atenção,

Um Perito Criminal Cansado

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